TRÊS MINUTOS

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               TRÊS MINUTOS

               roteiro de Jorge Furtado
               versão de 15/05/1998

               produção: Casa de Cinema de Porto Alegre

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CENA ÚNICA - INTERIOR-EXTERIOR/DIA

Mão feminina coloca uma ficha de telefone em um velho orelhão.
Disca um número.

Numa tevê em branco-e-preto, a transmissão de uma corrida:
numa pista de atletismo, corredores se preparam para a largada
de uma prova de revezamento 4 x 400 m.

Som de telefone tocando.

Na tevê, é dada a largada da corrida.

Ao lado da tevê há uma panela de vidro transparente sobre um
pequeno fogão, aceso. Dentro da panela, água começando a
ferver, e um ovo.

O telefone volta a tocar.

Ao lado do fogão, um balcão de cozinha com cebolas, tomates e
pedaços de frango, cortados numa tábua. Todo o ambiente é
muito compacto, apertado, quase uma miniatura de cozinha.

O telefone toca uma terceira vez.

Pouco mais adiante, ao lado do balcão da cozinha, uma mesinha
com um telefone e uma secretária eletrônica, modelo bem
antigo.

O telefone toca pela quarta vez e, imediatamente, a secretária
eletrônica atende, com uma voz masculina.

               SECRETÁRIA ELETRÔNICA (VS)
               Nem mesmo eu posso estar em todos os lugares ao
               mesmo tempo. Por favor, deixe o seu recado
               depois do sinal.

Ao lado da mesinha, uma geladeira. A porta da geladeira é um
verdadeiro mural, com vários bilhetes, contas de luz e avisos
de cobrança presos com ímãs coloridos.

Som do bip da secretária eletrônica, que começa a gravar a
mensagem, com voz de mulher.

               RECADO (VS)
               Aqui é a Marília. Não sei por que eu parei aqui
               pra deixar este recado. Eu tenho mania de
               deixar recado. Sempre tive.

Um bilhete na geladeira, com letra feminina, diz:

FUI NA PADARIA E JÁ VOLTO. TE ESPERO PRO JANTAR?

Mais embaixo, outro bilhete, com a mesma letra, diz:

O SR. HERRMANN LIGOU DE NOVO. ONDE VOCÊ ESTÁ?

               RECADO (VS - cont)
               Também não sei pra quê. Ninguém lê. Tu nunca
               lê. Mas hoje tu vai me ouvir.

No chão da cozinha, próximo à geladeira, há uma faca. Mais
adiante, saindo da cozinha, um tapete, e sobre ele o rosto de
um homem, de olhos arregalados, mortos.

               RECADO (VS - cont)
               A essa hora eu já devo estar longe. Não adianta
               me procurar. (pausa) Vão dizer que eu fiquei
               louca, que eu perdi a cabeça. Mas não faz mal.
               Pode ser que agora eu dê um jeito na minha
               vida.

A cabeça do homem não tem corpo: termina no pescoço. É a
cabeça de um boneco. De seu pescoço, saem alguns cabos e
pedaços de madeira. Perto dela, no chão, há outras cabeças e
mãos: a criatura de Frankenstein, Drácula, uma caveira.

               RECADO (VS - cont)
               Eu estou levando só o dinheiro que a minha mãe
               mandou e a minha bolsa. Não quero nada seu. Não
               foi nada planejado. Eu tava fazendo o almoço.
               Não sabia se eu cozinhava um ou dois pedaços de
               galinha. (pausa) E aí eu decidi. Essas coisas a
               gente decide assim, eu acho.

Na parede da sala, várias fotos emolduradas: foto antiga de um
homem de fraque; uma festa, onde aparece o homem, de smoking,
abraçado numa moça loira; foto da moça loira com um vestido de
lamê dourado.

               RECADO (VS - cont)
               Eu tinha que ter ficado na minha cidade, ter
               casado com alguém parecido comigo. Mas tu era
               tão bonito. (vacilante, quase chorando) Tão...
               diferente de todo mundo que eu conhecia.

Agora, pela primeira vez, vemos o ambiente inteiro: um
estranho conjugado sala/quarto/cozinha. As cabeças no chão.
Mais ao fundo, a cozinha. O ovo no fogo, a água fervendo. A
tevê ligada, com a corrida.

               RECADO (VS - cont)
               Eu queria ter a minha casa. Uma casa de
               verdade, de alvenaria. Com quarto, sala,
               cozinha. Eu só queria isso.  

Recuando, saindo pela porta.

               RECADO (VS - cont)
               Tu sempre diz que isso é bobagem, que isso é
               pro público. Mas eu quero ser que nem o
               público. Será que é tão difícil de entender
               isso? Será que é tão difícil entender que eu só
               queria ter uma vida...

Agora vemos o ambiente todo, de fora: é um velho trailer, com
as paredes já gastas, meio enferrujadas. A porta do trailer
está aberta. Sobre ele, uma placa onde está escrito:

GRAN CIRCO AMERICANO

               RECADO (VS - cont)
               (engasgada, quase chorando) O que é que eu fiz
               da minha vida?

Ruído no telefone. Cai a ligação. Sinal de ocupado.

A uns vinte metros do trailer, um velho orelhão, agora vazio.
O telefone está pendurado, balançando. Em volta do trailer e
do orelhão, um terreno baldio, terra vermelha.

Parada a poucos metros do orelhão, está MARÍLIA, 30 anos,
loira, de costas para o orelhão e para o trailer. É a mesma
mulher das fotos, um pouco mais velha. Tem uma bolsa a
tiracolo e um avental na mão, encobrindo o rosto.

Marília passa o avental pelo rosto, lentamente. Descobre o
rosto, que vemos pela primeira vez: ela acabou de chorar.

Marília fica algum tempo assim, de cabeça baixa, os braços
pendentes. Atrás dela, o orelhão, o telefone pendurado. Ao
fundo, o trailer.

Dentro do trailer, o ovo ferve na panela de vidro.

Do lado de fora, Marília continua parada, de cabeça baixa, o
trailer ao fundo.

O ovo continua fervendo.

Na tevê, os corredores se aproximam do final da prova, bastões
na mão.

Marília suspira, decidida. Larga a bolsa no chão, com cuidado.
Coloca o avental, enfiando-o pela cabeça. Passa as tiras do
avental pelas costas e amarra pela frente.

Os corredores rompem a fita de chegada. No canto da tela da
tevê, a indicação do tempo da prova: 3 minutos.

O ovo rompe-se na panela.

Marília volta a pegar a bolsa. Pendura-a no ombro. Vira-se de
costas e caminha em direção ao orelhão.

Lentamente, sem pressa, Marília pega o telefone e recoloca-o
no gancho. Com a outra mão, confere se a ficha foi devolvida.
Não foi.

Marília caminha lentamente em direção ao trailer, a bolsa a
tiracolo.

Marília entra no trailer. Fecha a porta.

Mão de Marília desliga a tevê. Apaga o fogão. Marília guarda
um pacote de dinheiro numa caixa. Coloca a bolsa dentro do
armário, fecha a porta. Aperta a tecla "Rewind" da secretária
eletrônica.

A clara do ovo espalha-se pela água da panela.

A tevê, desligada, ainda fica com um pontinho luminoso no
centro da tela. Então o pontinho some.

Na rua, a tarde começa a cair. O terreno, o orelhão, o trailer
ao fundo, agora com a porta fechada. Lá dentro, uma luz se
acende.

Sobre a imagem do trailer sobem os créditos finais.

Som do telefone tocando. Uma, duas, três, quatro vezes.

Ainda sobre a imagem do trailer, a secretária eletrônica
atende, com a mesma voz masculina do início.

               SECRETÁRIA ELETRÔNICA (VS)
               Nem mesmo eu posso estar em todos os lugares ao
               mesmo tempo. Agora, por exemplo, eu não estou
               em casa. Por favor, deixe o seu recado depois
               do sinal.

Ouve-se o bip da secretária eletrônica, e a mesma voz
masculina, agora do outro lado.

               RECADO (VS)
               Marília? (pausa) Marília... Sou eu. Eu só
               queria saber se tinha algum recado pra mim.

Ainda sobre a imagem do trailer, ouvimos o telefone sendo
desligado.

FIM

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(c) Jorge Furtado, 1998-99
Casa de Cinema de Porto Alegre
http://www.casacinepoa.com.br
15/05/1998

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