ENTREVISTA ESPECIAL com o diretor Jorge Furtado.

Jorge Furtado

Roteirista e diretor de diversos curta-metragens como O dia em que Dorival encarou a guarda (1986), Barbosa (1988), Ilha das Flores (1989), Esta não é a sua vida (1991), Ângelo anda sumido (1997) e o Sanduíche (2000), Jorge Furtado também escrever roteiro de inúmeros especiais para televisão, como Agosto, A Invenção do Brasil e Comédias da vida privada. Este ano ele realiza seus dois primeiros longa-metragens: Houve Uma Vez Dois Verões (filmado no início do ano e em fase de finalização) e O Homem que Copiava, que atualmente roda em Porto Alegre. Foi durante o almoço, uma das poucas pausas entre as filmagens de O Homem... que Jorge falou sobre a Casa de Cinema, a sua estréia em longa-metragens e sobre o filme que está rodando.


O que tu fazia antes de trabalhar com cinema?

Antes de trabalhar com cinema, eu fazia televisão. Trabalhava na TV Educativa. As primeiras coisas que eu fiz com imagem foram na TVE. Eu era assistente de produção e a gente tinha um grupo de oito estudantes da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul) que tinham um programa de televisão chamado Quizumba, que era um programa semanal de uma hora e misturava ficção e documentário. Tinha um assunto, um tema, para o programa e tinha dentro desse programa uma ficção para este tema. Antes disso eu fazia outras coisas: estudei medicina quatro anos, estudei artes plásticas, estudei psicologia um pouco também. Mas assim, relacionado com o cinema, foi do jornalismo para o cinema. Eu fazia também jornalismo e larguei. Nunca terminei um curso. Fiz quatro e larguei todos no meio.

Porque só agora a Casa de Cinema está fazendo tantos longas? O que impulsionou isso?

Acho que o caminho natural para quem faz cinema é fazer longa metragem, porque é impossível viver de curta. Fazer curta-metragem não é uma profissão: Curta-metragista. Não existe isto, porque todo mundo que faz curta-metragem faz outra coisa também para poder viver disso. Uma produtora que fizesse só curta-metragem não sobreviveria. A empresa talvez sobreviva, mas as pessoas da empresa certamente não. Quer dizer, a maioria das pessoas na Casa de Cinema trabalha em outras coisas também. Eu trabalho em televisão, o Gerbase e o Giba dão aula. Enfim, as pessoas fazem outra coisa para sobreviver porque viver de cinema no Brasil é dificílimo, e de curta é impossível. Fazendo um longa-metragem... O longa-metragem já é um mercado mais real, porque as pessoas saem da casa e pagam ingresso para ver longa, não para ver curta. Então eu acho que é o caminho natural para quem quer se profissionalizar, viver profissionalmente de cinema, é fazer longa-metragem. Na verdade a gente sempre quis fazer longa. As condições de produção de longa-metragem é que são difíceis. Captar recursos no Brasil para fazer um longa-metragem é uma coisa que demora muito tempo. A gente começou a trabalhar no projeto do Tolerância há sete anos já, eu acho. Agora é que os projetos estão se concretizando, mas os projetos já vem de algum tempo.

Mas a que tu credita isso? Há novidades nas leis de incentivo?

Não, na verdade o Tolerância e O Homem que Copiava fazem parte de um mesmo processo de captação de recursos. Os dois tiveram o mesmo caminho, um pouco invertido, mas o mesmo caminho que é a captação de recursos da Lei do Audiovisual e o Prêmio da RGE. Nos dois casos, os filmes começaram a captar e, no caso do Tolerância, no começo da captação teve o prêmio que viabilizou o filme. O Tolerância pegou uma fase de captação onde tinha mais dinheiro sendo investido em cinema, via Lei do Audiovisual. O Homem que Copiava pegou um segundo momento, quando esse investimento caiu muito. Então ele levou mais tempo captando e só quando a Columbia entrou no filme é que a gente teve dinheiro para marcar as filmagens. Porque a gente tinha dinheiro para terminar a filmagem, mas não tinha dinheiro para terminar o filme. E agora com o Prêmio da RGE temos recursos para chegar até o final do filme.

Então tu não pensa mais em voltar a fazer curtas?

Penso. Não só penso como vou fazer muitos outros curtas. Eu gosto de curta. Eu gosto do formato do curta-metragem. O curta é um processo bem diferente, desde a criação do roteiro. É como um conto e um romance. O curta é uma corrida de 100m rasos. Tu trabalha uma semana hiper concentrado e faz o filme. E o longa não, é uma maratona. É um negócio que tu tem que preparar muito e ficar um tempão fazendo. Essa diferença de realização, desde roteiro até produção, faz com que os dois processos criativos de um e de outro sejam muitos diferentes. Eu acho que tu pode ter uma idéia para um curta, eu ouço isso seguido, porque o curta é construído em torno de uma idéia. Tu pode ter uma boa idéia, uma sinopse muito simples e pronto, a partir dali tu faz um filme de 10, 15 minutos. Um longa não. Não dá para se dizer: "Tive uma idéia para um longa". Isso não existe. Tu tem que trabalhar muito para fazer um roteiro de longa metragem, a não ser que tu tenha a idéia de adaptar um livro ou coisa desse tipo. Então é um outro processo. Mas os dois processos são interessantes. Eu gosto da rapidez do curta: escrever, produzir e filmar em menos tempo. Na verdade eu gosto mais ainda deste processo na televisão, em que tu escreve e um mês depois já está pronto. Essa é uma coisa que me atrai muito no processo de criação em TV.

Tu faz o teus filmes e ao mesmo tempo escreve um monte de roteiros para cinema e TV. Nunca te sentiu atraído para a palavra impressa, para o livro?

Não, me atraí sim. Mas eu acho que escrever é um negócio muito mais complicado. Escrever diretamente para o livro é um processo que... Livro é uma coisa mais duradoura até que o filme e tem uma responsabilidade maior com a palavra. Eu acho que para tu escrever um livro que realmente valha a pena... Eu não me sinto muito pronto para isso, sentar, escrever uma coisa e imprimir. Na verdade, eu até tenho um livro publicado, mas é uma entrevista que fizeram comigo, então não é um texto meu. Para chegar a escrever um texto que eu diga, "Bom, isso aqui vale a pena virar livro", ainda falta um pouco ainda. E eu sempre penso em termos de imagens e palavras ao mesmo tempo. Eu penso muita cena sem palavras. Esse filme mesmo tem longas cenas mudas, sem off, sem nada. São pensadas em termos da imagem. Quando eu sento para escrever, eu penso muito em termos de imagens associadas com palavras. Mas eu acho que eu vou fazer um livro ainda, em breve.

A Casa de Cinema se recusa a fazer publicidade, mas ao mesmo tempo faz propaganda política. Como vocês diferenciam isso?

Na verdade, quando a gente criou a Casa de Cinema, a gente definiu por estatuto que não faríamos publicidade. Mas não era uma coisa assim... quer dizer, parte era ideológica. Mas a principal questão não é ideológica. Até porque muitos de nós, e quase todos, fizemos publicidade e eventualmente - eu não faço mais publicidade, mas enfim - podemos fazer publicidade em outras produtoras, fora da Casa de Cinema. O problema é que uma produtora que faça publicidade acaba muito absorvida pelo mercado publicitário, que é um mercado muito ativo, muito real, envolve muita grana. Então é difícil uma produtora fazer publicidade e se concentrar em fazer cinema também, porque a publicidade acaba tomando todo o tempo da produtora. Existem alguns exemplos, e talvez o maior deles seja o da Conspiração, que é uma produtora que faz publicidade e faz cinema também. Mas é uma empresa grande, com muitos diretores. Uma empresa muito maior, capaz de, talvez, se dividir por períodos. Eu não saberia estar fazendo um filme e, numa folga, fazer um comercial. Eu não consigo mudar tão rapidamente de um trabalho para o outro assim. Então a gente definiu que não faria publicidade. Agora, a campanha política, que é uma espécie de publicidade também, ela é sazonal. É um negócio que acontece só de vez em quando. A gente só faz campanha política para o PT. Então é uma coisa que envolve um certo compromisso político também com a proposta do PT e que naquele período desconcentra. "Bem, agora nós estamos fazendo a campanha, não fazemos mais nada", e depois voltamos a fazer os projetos de cinema.

Tu já disse que O Homem que Copiava era para ser o teu primeiro longa-metragem, então por que filmaste primeiro o Houve Uma Vez Dois Verões?

Foi na verdade uma possibilidade de produção, porque eu escrevi o roteiro de O Homem que Copiava, comecei a escrevê-lo há cinco anos, pelo menos. Na verdade tem uma cena que eu filmei na semana passada que eu escrevi em 1984. Uma cena que estava escrita para um outro roteiro, para uma outra história, mas que eu gostava da cena, guardei e ela acabou se encaixando na história do Homem que Copiava. Então eu estava escrevendo este roteiro há tempos, ele ficou pronto acho que uns três anos atrás, começou a captação e é um processo super demorado até o filme ficar pronto. Nesse meio tempo eu escrevi um outro roteiro de longa, que é na verdade um longa que eu pretendia fazer de qualquer maneira, com baixíssimo orçamento, para filmar nos finais de semana. Escrevi a história para ser encenada toda por atores que moram em Porto Alegre, gaúchos, jovens, disponíveis, eles podiam ensaiar bastante. E eu estava com o roteiro pronto quando surgiu o concurso do Ministério da Cultura para filmes de baixo orçamento. Como o roteiro estava pronto, eu mandei e aí o filme foi premiado no concurso. Tinha prazo de finalização, até o final do ano, agora. E ele tinha que ser filmado no verão porque era uma história de verão. Então eu acabei invertendo.

Tu produz muito em termos de roteiro. Nunca acontece de um ficar engavetado?

Olha, várias vezes eu escrevi coisas que ficaram engavetadas muito tempo, mas uma coisa que eu aprendi é que, quando se escreve, nada vai fora. Tu pode deixar na gaveta, como essa cena de que eu te falei, que ficou 16 anos guardada lá para ser filmada. E às vezes tu tem idéia para uma história e vê que no momento não tem condições. Deixa ela lá que daqui há 3, 4 anos pode acontecer que tu precise de uma. E de um jeito ou de outro ela volta.

O filme tem alguma inspiração? Quais são as referências literárias e cinematográficas dele?

Ele tem muitas referências. Na verdade ele tem centenas de referências. Acho que foi o Millôr quem disse isso: quando tu copia alguém é plágio, quando tu copia trezentas pessoas é pesquisa. Na verdade o filme tem muita referências, menos de outros filmes, mas de outros filmes também, certamente. Alguns filmes que eu nem tinha visto e gente que conhecia o roteiro me falou: "Pô, vê esse filme". Até mudei um pouco o roteiro quando estava escrevendo lá no começo, porque quando eu fiz o primeiro tratamento e mostrei para o Giba, ele me disse: "Já viste o Não Amarás?". E eu não tinha visto. Eu assisti e tinha algumas coisas parecidas, na verdade ainda tem, mas antes tinha mais, eu acabei mudando o roteiro. Eu acho que é impossível, praticamente, tu inventar uma coisa inteiramente nova. Tudo é referenciado em outras coisas. Tem uma coisa que é muita referência e, para mim, é evidente no filme que é assim: O Homem que Copiava foi construído em torno do personagem do André, que é um garoto que fica pensando coisas, fala pouco, mas fica pensando muitas coisas e tem um mundo interior muito complexo e tal. E esse tipo de raciocínio, a fala dele, é um tipo de literatura que até tem um nome, skatz, que é o adolescente que fala, fala, fala numa linguagem coloquial. A literatura norte-americana foi praticamente fundada nesta tradição através do Mark Twain, Tom Sawyer e muitos outros livros assim. E as referências mais diretas ao personagem do André são dO Apanhador no Campo de Centeio, do Salinger, que é um personagem, o Holdein, um garoto meio perturbado que fala o tempo inteiro. Uma colega da minha filha estava lendo o livro e disse: "Esse cara não pára de falar". O livro é todo na primeira pessoa. E um outro que talvez seja uma referência ainda mais direta que é um personagem também em parte adolescente no livro que é o Billy Pilgrim, que é um personagem do Vonnegut no livro Matadouro 5. Aí tem uma outra referência ao livro que é não só um personagem, mas fluxo de tempo da história que no Matadouro 5 e também em O Homem que Copiava é uma história que anda aos pulos. A linha de raciocínio do filme não é cronológica. Você tem cenas que se repetem muitas vezes, outras são muito posteriores às que vem antes, não necessariamente flash-backs, nem chega a criar uma estrutura de tempo que tu possa estabelecer que aquela cena é um flash-back, porque não existe um linha única de tempo. Um outro filme que é assim, aliás, é o Annie Hall (Woody Allen, 1977). É um filme todo montado mais pela lógica do discurso do que pela da cronologia dos acontecimentos. Essas são as referências que eu percebo como mais diretas. Mas todo o tempo a gente acrescentou coisas. Tem muitas referências ao Shakespeare, muitas referências ao Cervantes. Como ele é um ilustrador, o garoto desenha, tem muitas referências de artes plásticas, tanto de composição de cenários como de enquadramentos.

Fora as referências literárias e cinematográficas, tem aquela brincadeira de tu plantar referências no cenário?

Total. Nesse sentido o filme é praticamente barroco. Porque eu acho que um filme, o cinema, possibilita a inclusão de muitas idéias. Eu acho um erro tu considerar que uma cena tem uma idéia só. Tu pode ter muitas coisas numa única cena. Então, nesse filme - e talvez, dos meus filmes, o mais parecido com esse seja o Ilha (das Flores) nesse sentido, porque - as cenas são muito curtas e tem muita coisa em cada cena. Então a gente vai brincando de botar referências. Algumas delas são visíveis, algumas fazem parte da narrativa, contam a história, mas algumas delas são quase imperceptíveis para o público ou são para quem assistir mais de uma vez ao filme. Tem detalhezinhos de uma cena que a ligam na outra e aí a gente fica brincando de botar coisas nas cenas. Eu acho que não tem nenhuma cena neste filme que não tenha algum tipo de ligação com outra ou com referência a algum outro filme ou algum autor.

Apesar de te preocupar com tantos detalhes, tu tem fama de filmar rápido. Ensaia, filma uma ou duas vezes e está pronto, vamos para outra...

Eu gosto de filmar assim. Como o filme já está muito na minha cabeça, a gente já discutiu muito o filme. Isso é outra coisa importante de dizer: esse é um filme de equipe, aliás todos os filmes são um trabalho de equipe. Mas esse, talvez mais que os outros. Eu estou trabalhando com a Nora há muito tempo na concepção do filme e, nos últimos meses, a gente decupou junto: eu, o Fiapo (diretor de arte), o Alex (diretor de fotografia) e a Ana (assistente de direção). A gente todas as tardes e, no final do último mês, o dia inteiro, a gente decupava o filme pensando em cada plano o que monta com qual. Então o que é importante e significativo na história do filme está muito definido já para mim. E eu já trabalho com essa equipe há muito tempo, uns 17 anos já. Então cada um contribui da sua maneira na realização. Então o Alex vai lá e inventa um plano, a Ana já resolveu como é que faz o eixo e onde que os figurantes vão entrar, o Fiapo sugeriu várias coisas e eu estou pensando noutras. Eu acho que na hora da filmagem é importante também tu delegar para cada um o seu espaço de criação, e para os atores também que acabam inventando muita coisa e contribuindo para o filme.

A equipe em cinema é muito especializada e todas as decisões acabam centralizadas na direção. A teu ver qual é o teu papel como diretor?

Olha, eu acho que o papel do diretor acontece muito antes da filmagem. Eu acredito muito na direção pré-filmagem. Começa com o roteiro, no meu caso que faço o roteiro também, de pensar o filme antes dele ser produzido: em todos os detalhes do roteiro, na seleção do elenco, na escolha das locações, na definição de figurinos, na definição de cenários, na definição da decupagem, tudo aquilo vai sendo planejado antes. Durante a filmagem, eu me preocupo fundamentalmente com os atores, porque eles chegam no filme muito mais próximo da realização. Eu estou trabalhando nisso há muitos anos, mas eles estão chegando nisso há poucos meses. Então eu concentro muito a minha atenção no trabalho dos atores, em ficar com eles, em discutir com eles, em discutir as referências mesmo que eu citei, eu emprestei os livros para eles, os filmes, a gente discute isso. Eu acho que isso é uma coisa muito anterior, porque na hora da filmagem é um negócio tão caótico, tão tumultuado o processo de realização naquele minuto que o diretor fica meio como um mestre de cerimônias para manter todo mundo ligado, os atores atentos, porque não é um espaço muito adequado para a criação. Não é hora de ter idéias, durante a filmagem. Não é hora de chegar assim: "Olha, tive uma idéia muito boa". É raro acontecer isso. Na verdade isso acontece mais se tu tem um planejamento bom, porque daí tu pode te "desligar", pode te distanciar um pouco da filmagem e dizer: "Bom, esses planos estão definidos, mas nesse planinho aqui eu vou inventar um negócio novo agora". Se tu não planeja e deixa para ter idéia na hora, tu não consegue e o filme vai para a cucuia. Eu acho que quanto mais planejado o filme, mais espaço tu tem para criar na hora e mesmo assim é um espaço muito reduzido.